Opinião

Painting in the dark: você faria arte sem nenhuma plateia?

Isso pode ser tão perigoso que carreiras criativas podem acabar antes mesmo de começarem.

Por Mellanie Anversa. 

A necessidade de produzir e mostrar algo de bom para o mundo está cada vez mais consumindo a alma das pessoas. Sim, tudo isso me consome por dentro. Pois bem, gostaria de contar que assisti um vídeo ontem que clareou minha mente e me fez enxergar um significado para as coisas que me vêm ocorrendo. (veja o vídeo no final do texto)

O vídeo, dirigido pelo cineasta indicado ao Emmy em Londres, Adam Westbrook, faz parte de uma série chamada The Long Game. A terceira parte, que é o que mais me impactou (recomendo ver os outros), se chama Painting In The Dark. Mas que raios isso quer dizer? 

Westbrook traz uma análise impressionante sobre a produtividade e o sucesso imediato que esperamos delas. Para os criativos, ao produzir algo e colocar toda sua energia nisso, o mínimo que se espera é uma boa audiência. ERRADO. Às vezes, não importa se você é realmente bom naquilo, há pessoas que vão receber muito mais plateia do que você por algo bem menos interessante. 

Isso pode ser tão perigoso que ele cita que carreiras criativas podem acabar antes mesmo de começarem. Afinal, quem gosta de fazer arte no escuro, não é mesmo? Quando nos vemos nessa situação, o conselho geral é: mostre-se ao mundo, divulgue seu trabalho, as pessoas precisam te conhecer. 

Mas, o que o cineasta faz é trazer um exemplo que pode fazer sentido, pelo menos para mim, nos dias atuais. Ele fala sobre Vincent van Gogh, o pintor holandês que viveu entre 1853 e 1890. 

Mas é claro que todos conhecem Van Gogh, ou suas enigmáticas pinturas. Mas o que vemos no vídeo, é uma história pouco contada sobre o artista. Por mais que saibamos que ele foi um dos pintores mais conturbados e que produziu durante anos na obscuridade, nunca de fato paramos para pensar no que isso tudo significava. 

O artista passou nove anos sem vender nenhuma de suas pinturas. Sim, Van Gogh, que hoje vale milhões e tem suas obras expostas no Museu do Louvre, trabalhou anos na pobreza e no esquecimento

Com 27 anos, o artista pegou pela primeira vez em um lápis e começou a produzir. Mas, se você imaginava que ele era um artista nato, um talento de berço, esqueça. Van Gogh não levava muito o jeito para pintar quadros quando começou. Tentou aprender com alguns mentores, mas sua falta de perspectiva e sombra não valorizava suas artes. Por isso, aos 30, ele voltou a morar com os pais. 

Apesar das perspectivas para seu futuro na pintura não serem muito animadoras, Vincent não desistiu. Ele começou a trabalhar duro e aperfeiçoar seu trabalho. No entanto, apenas uma pessoa prestava atenção a seus trabalhos, seu irmão Theo. Imagine, trabalhar tão duro para plateia de um só.

O cineasta, então, enxerga em Van Gogh um conceito não muito divulgado,o Autotélico. Ele explica que a palavra saiu do livro Flow: a psicologia de experiência optimal, do psicólogo húngaro Mihaly Csikzentmihalyi, que trata-se de uma atividade auto-suficiente, que não é feita com a expectativa de um benefício futuro, mas simplesmente porque o fazer é a recompensa. 

É onde chegamos ao ponto final. Por que nos importarmos tanto com os resultados externos se não temos controle sobre eles? Apesar de vivermos em um mundo em que esses resultados são mais valorizados do que qualquer outra coisa, o desafio de hoje é entender que o reconhecimento não vem de uma hora para a outra, ou até mesmo quando se espera por ela. O segredo é se divertir e, claro, fazer arte no escuro, mesmo que ninguém esteja olhando. 

Agora que vocês chegaram ao ponto que eu queria, posso contar: é sobre isso que o portal Os Cronistas se trata. 

*há legenda em português.

Leia também:

Parques de Curitiba serão abertos de maneira gradativa com bandeira amarela.

4 comentários em “Painting in the dark: você faria arte sem nenhuma plateia?

  1. Rui Bittencourt

    Isso me lembrou a história da Vivian Maier que fotografava e não revelava, aí só descobriram o tesouro depois que ela morreu. Durante a vida ela foi artista pra uma plateia de zero pessoas. Imagina nem você saber como é a tua arte.

    Curtir

  2. Parabéns pelo texto! É um ponto de vista interessante, principalmente na atual situação em que vivemos. Hoje, ter opinião própria é algo complexo. Qualquer idéia ou opinião, rapidamente será julgado pela militância de plantão, será lado A ou Lado B. Uma corrente filosófica chamada romantismo, vinda da Alemanha, pregava que o homem é somente livre quando expressa a sua arte. E que assim seja, vamos expressar nossa arte, as nossas opiniões e desenvolver nossos projetos, o resto é consequência. Sejamos livres, verdadeiramente livres…

    Curtir

  3. Guilherme Charneski Carneiro

    Meus parabéns pelo texto, Mellanie. Compartilhando do comentário de Emerson, o romantismo ia contra a extremada reprodutividade técnica da arte. Valorizar o sentimento estético, a imaginação criativa e a arte criadora no lugar da “razão”, é desafiar a fria racionalidade do mercador e do funcionário.

    A estética é (foi?) uma racionalidade anti-instrumental, retirando sua expressão da esfera do valor de troca e da utilidade. A natureza antipragmática da estética deve tornar-se um fim em si mesmo. Ela é o que ensina o desinteresse para o desejo. Uma vasta tradição de pensadores e artistas nos trouxeram esse legado de criação absolutamente livre e contemplação desinteressada da atividade estética e do jogo. Devemos nos lembrar mais disso. Parabéns!

    Curtir

  4. Pingback: Nem neve, chuva congelada ou geada. Curitiba só terá muito frio nos próximos dias – Notícias de Curitiba e região

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: