Crônicas

Uma chance

Por Vinicius Frois.

Segunda-feira não é, exatamente, um dia produtivo para mim. É um dia preguiçoso que vivo no automático.

A última, num 27 de julho quente durante o dia e gelado à noite, não foi diferente. Fora levar meu cachorro para cheirar as árvores da rua, o plano era esquecer o relógio com os olhos vidrados na tela do celular. Não foi.

Quando perto de 20h, fui ao posto abastecer o carro. Fui e voltei em poucos minutos.
Na volta, passei em frente a um botiquim, a uma quadra de casa, onde costumo encontrar os amigos e jogar baralho, sempre munido de um copo de cerveja, quando os tempos não são pandêmicos.

Já próximo, num terreno baldio que há em frente, vi uma pequena movimentação de pessoas. Curioso como um jornalista, parei o carro e fui perguntar qual era o evento. Um membro da platéia resolveu me responder:

– Um rapaz foi agredido. Esta lá dentro, machucado.

Gelei. Perguntei se haviam chamado socorro. Dois ou três disseram que sim. Sem a intenção de testemunhar o acontecimento, entrei no carro e fui para casa.

Próximo de 22h, eu já estava quente na cama, mas sem esquecer do ocorrido. Foi quando resolvi voltar à esquina para ver se tudo já estava normal. Por coincidência, uma ambulância do SAMU estava por ali, sem saber onde era a ocorrência. Prestativo, resolvi mostrar onde era. Não havia mais uma pessoa no local. Há pelo menos três horas alguém estava jogado à própria sorte num terreno vazio.

O fiz, voltei para casa e me pus novamente sob cobertas, aliviado por saber que o socorro chegou para quem estava precisando. Não descansei.

Entre um episódio e outro de uma série, resolvi levantar novamente para confirmar se tudo estava bem. Assim, a surpresa. Uma pessoa surgiu no portão, atraída pela luz acesa da garagem, esbaforida:

– Moço, um rapaz está muito mal ali na outra rua. Pode chamar socorro? Acho que ele vai morrer.

Me assustei, saquei o celular e liguei para a emergência enquanto caminhava até o local, acompanhado do mensageiro. Já era um novo dia.

Fiz o que tinha que fazer ao telefone e disse à atendente que esperaria a ambulância no local – da primeira vez não encontraram o necessitado e foram embora. Meia hora depois, aponta na esquina aquela viatura de socorro. Suspirei.

Sozinho com os socorristas. Ofereci ajuda. Pediram apenas que eu iluminasse o local com a lanterna do meu celular. Quando vi a cena, meu coração quase parou.

Era um jovem que deve ter suas 30 primaveras, desfalecido sobre a relva, entre mato alto e lixo, irreconhecível pelas agressões que sofreu, vivo. Entristeci mesmo assim.
Talvez não esqueça tão cedo o que me disse o socorrista:

– Este rapaz, se voltar, deve vir te agradecer. Talvez morresse aqui neste beco. Está bastante machucado. Você pode ter salvado a vida dele.

Por fim, o levaram, com vida. Sabe Deus quem o atendeu, talvez, que fim levou.
Fato é que eu voltei sem chão. Voltei sem sentir meus passos, impressionado, triste. Prefiro acreditar que aquele rapaz ficou bem. Que venceu aquela luta sangrenta. Que ele ainda vai aparecer para me agradecer por ter uma nova chance.

No que não consigo acreditar é na violência desmedida. Na ausência de amor em tempos já tão difíceis.

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1 comentário em “Uma chance

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