Crônicas

Existimos

Por Vinicius Frois.

Eu, mais do que ninguém, pude compreender o significado do título do meu próprio livro quando li cada uma das histórias, após escrevê-lo e revisá-lo por quase um ano. Depois de finalizado, pude sentir cada parágrafo como um leitor.

Durante um semestre eu me dediquei apenas a encontrar personagens, ouvir suas histórias e passá-las para as páginas do meu opúsculo que, mais tarde, concluiria toda a minha jornada acadêmica para ser um jornalista.

O tema do meu derradeiro trabalho de faculdade abordava pessoas em situação de rua da região central de Curitiba e o título da obra é ‘Eu Existo’, que faz referência à invisibilidade em que as pessoas nessa condição se encontram.

Conheci pessoas incríveis enquanto garimpava os personagens do livro. Ouvi histórias de final feliz, ouvi histórias de final triste, ouvi histórias que sequer tinham um fim. Pouco a pouco eu fui entendendo, de fato, qual era o meu papel e o que eu queria escrever.

Abordar pessoas em condição de vulnerabilidade social não é tarefa fácil. Requer o mínimo de traquejo e sensibilidade, é necessário saber chegar e saber sair, e isso me fez dar murros em ponta de faca dezenas de vezes. Aprendi.

Um a um, fui esmiuçando os capítulos de suas histórias. Entre uma frase e outra, uma anotação no papel, uma clique na câmera fotográfica, um marcador no áudio da gravação.

Depois de tudo. Além da parte técnica e de todo o processo de produção, além dos dias longos e das noites que só tinham fim no crepúsculo, muito além de cada xícara de café quente e de cada dose de analgésico, deixo esta etapa da vida como uma pessoa muito melhor. Nas ruas eu refirmei cada uma das minhas ideias sobre a importância de políticas públicas, inclusão social e fortalecimento ininterrupto da saúde pública do nosso país.

Foi difícil ouvir de algumas pessoas que entrevistei o quanto elas sofrem com regimes higienistas, que cristalizam estereótipos que surgem da ideia deturpada de que todos têm as mesmas chances na vida, independentemente de qualquer condição social.

Fui apenas uma ferramenta. Através de mim, histórias foram contadas e estampadas nas folhas de um pequeno livro. Pequeno livro que sustenta grandes cidadãos que vivem às margens da sociedade. Pessoas em situação de rua existem e resistem.

Pode ser que isso nunca mude, por azar ou por inconsequência de outrem. Mas uma coisa é certa se o livro sagrado for levado ao pé da letra: “nem só de pão viverá o homem”.

1 comentário em “Existimos

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