Crônicas

Divã

 

Por Mellanie Anversa.

Se eu não escrever isso agora, não irei escrever nunca mais.

Saindo hoje pela manhã, atrasada para o trabalho, como de costume, me irritei pelo fato de ter que pagar muito caro pela minha corrida de aplicativo – porém, sem muitas opções do que fazer naquele momento.

Entrando no carro, o motorista mal esperou minha filha e eu embarcarmos para falar que havia nos visto no mercado, perto da minha casa. Num primeiro momento, achei ele um pouco afobado para dar aquela informação, mas me pareceu que ele não ia aguentar segurar até que a corrida começasse.

No aplicativo, adicionei uma parada e o destino final. A primeira parada não fica nem a dez minutos da minha casa e nesse meio tempo ele não parou de falar. Pediu desculpa, mas atestou trabalhar sempre em silêncio – talvez eu tenha dado confiança para um bate papo, quem sabe.

O homem de meia idade confessou estar se separando do segundo casamento. Sem filhos nesse relacionamento, me pareceu um pouco necessitado em falar do assunto. Deixamos minha filha na escola e sua consulta no divã realmente começou. Confiou a mim histórias de seu casamento que disse que não havia declarado a ninguém.

“O homem tem dificuldades em falar sobre essas coisas, não sei como estou conseguindo falar agora”, disse ele.

Em certo momento da nossa corrida/consulta, o homem disse ter errado com a ex-esposa. Que nunca a convidou para ir a um show de rock, algo que ela disse sentir vontade na hora do rompimento. Ele pareceu tocado.

Eu, que às vezes divagava um pouco – culpa da noite cansativa escrevendo textos –, acordei nesse momento apenas para dizer-lhe para não cobrar-se tanto. Mal sabia ele que essa história não é novidade para mim e o aconselhei a não se martirizar tanto. “Talvez a culpa tenha sido sua, mas tenho certeza que não foi só você que falhou nisso. Se ela queria tanto ir a um show de rock, por que nunca lhe disse?”, falei, indagada.

Acho que isso de fato fez alguma diferença para ele, pelo menos naquele momento. Passado aquilo, ele entrou assuntos que não consegui mais acompanhar, até sobre o preço alto da carne. Segundo ele, a culpa é da exportação.

Cheguei ao meu destino, que parecia ter demorado mais que o normal. Saindo do carro, o motorista elogiou minha tatuagem e disse que ele também tinha uma na perna, que ele mesmo desenhou. Inconformado em não conseguir me mostrar de dentro do carro, desceu e me mostrou a imagem de uma índia grávida, sentada em um lago à luz do luar.

No entanto, ao invés das crateras da lua, havia um feto, que dormia tranquilo dentro daquele ventre.

Isso valeu meus R$ 35 de corrida na manhã desta terça-feira.

0 comentário em “Divã

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: