Crônicas

João de barro

Por Vinicius Frois. 

O pequeno João de Barro sobrevoou um rio de lama.
Ousou descer, viu de perto o que para ele poderia servir de parede à sua nova casa. Quando esteve bem próximo, de pousar desistiu.
Não era lama, não era barro, era apenas uma montanha de lixo que o homem da firma rejeitou.
João de Barro voou para longe, voou sobre outras casas revestidas daquela lama, voou sobre os seus, voou sobre os nossos, voou sobre os que estavam acima e sobre os que estavam abaixo daquilo que o homem da firma derramou e chamou de tragédia.
Entre uma árvore e outra, quando chegara ao seu quintal, João de Barro não encontrou sua casa e nem jamais encontrará. Nem sua casa, nem os seus que nela o esperavam. João de Barro, sem culpa, não tem mais nada.
Pobre João, desesperançoso, olha outros enormes pássaros cuspindo humanos que procuram outros humanos, outros Joões.
Sem saber quanto Vale uma vida – talvez porque ela não tenha preço -, o homem da firma tenta pagá-las com números que João jamais viu.
O homem da firma não sabe quanto Vale a vida, mas sabe o valor de uma casa e de um conformismo para João.

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