Crônicas

Ao meu lado, mora a favela

Por Mellanie Anversa

Quem diria que ela é tão feia por fora, mas tão linda por dentro? É claro, todos sabemos que não se pode julgar o livro pela capa, mas é impossível sentir seus cheiros e olhar em seus olhos sem sentir repulsa, talvez até do mundo. Mas quando a conhece, a instiga e a aceita, o que se tem é um acumulado de emoções, gratificantes, sem dúvidas.

Alguns, poucos, sabem que estive, durante os últimos três meses, produzindo um livro-reportagem como produto jornalístico para conclusão do meu curso, jornalismo. Meu objeto de estudo, que gerou um belo livro – é bonito mesmo, foi a favela do Tingui. O livro chamado de “A Favela Mora ao Lado” me fez conhecer bem de perto a comunidade que esteve presente no meu dia a dia nos últimos 14 anos. Pois bem, me apaixonei e relutei contra ela durante esse percurso.

Quando conheci a Vila Tingui não fazia ideia de que, um dia, ela mudaria minha vida. Eu ainda era pequena, quinto ano do fundamental, quando conheci um de seus moradores. Lucas foi meu primeiro contato com esse mundo – e chamo de mundo. Apesar de estar ao seu lado, nunca havia o visto tão de perto. Bafo, como o apelidavam, era uma criança malandra. Entendia de tudo um pouco e possuía uma leveza que eu não sou capaz de explicar até hoje, 13 anos depois.

Bafo era da favela, isso eu sabia, mas as dificuldades que isso implantava em sua vida, eu não fazia ideia. Hoje, soube que desde a época que conheci Lucas, ele vendia drogas. Talvez isso explique sua leveza. Ao contrário do que eu enxergava, ele não parece mais entender de tudo um pouco. Muito pelo contrário. Parou de estudar logo no ano em que nos conhecemos. O que ele entende, mesmo, é do que a vida é capaz de nos mostrar.

Ele me pergunta se terminei os estudos. Poxa, lá estava eu para fazer entrevistas e construir um livro que me fizesse graduar no ensino superior. Confesso que engoli seco e meu estômago embrulhou, eu não fazia ideia de que nem seus próprios estudos ele havia terminado.

Estar na favela mexeu comigo diversas vezes. Passei semanas me culpando e sendo ríspida com pessoas para que dessem mais valor às suas vidas. De maneira errada, culpei os que nasceram com uma condição de vida melhor, mesmo sem que eles tenham culpa disso. Conhecer a Vila Tingui foi um processo profundo. Entrar em vidas e participar delas não foi fácil. Não sabia ao certo os limites entre a reportagem e a experiência. A linha é tênue.

A favela do Tingui me sugou. Não quero vê-la tão cedo. Absorver suas histórias e resgatar seu coração profundo foi cansativo e provocante. Um desafio, de vida.

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