Crônicas

O louva-deus

Por Mellanie Anversa.

Era uma tarde atípica de frio naquele ano curitibano. Em meses de intenso calor fora de época, o frio finalmente havia chegado, congelando rostos com ventos cortantes. Eu caminhava o mais rápido possível com a minha filha para onde o vento não penetrasse quando fui surpreendida pelas costas.

– Olá, moça bonita.

Disse o homem a minha filha. Instantaneamente, parei minha caminhada e voltei minha atenção para aquele rapaz de cabelos e sobrancelhas puramente tingidos com água oxigenada e remelas no canto dos olhos. Ele flexionou os joelhos até que eles encostassem no chão, tal qual alguém que fosse pedir perdão por seus pecados. Notei que em suas mãos haviam pedaços de plantas que eram utilizadas na produção de seu artesanato.

Ele estendeu uma das mãos segurando um Louva-Deus, inseto que por causa da posição de suas patas aparenta louvar por algo divino, feito com pedaços daquele material. Com medo, minha filha não ousou pegar o inseto estranho que o homem lhe oferecia. Pelo contrário, ela deu dois passos para trás e só voltou após muita insistência da minha parte para que segurasse aquele falso inseto com aparência bem realista.

Quando ela finalmente aceitou o inseto feito de plantas, vi em seu rosto uma felicidade relativamente nova. Ela, que tinha muito medo de insetos, estava segurando um de mentira, com aparência muito convincente.

De pronto, aquele homem que proporcionara um momento de pura alegria à pessoal mais importante da minha vida, disse:

– Eu vim de Londrina e moro nas ruas. Aqui eles não oferecem muita opção para quem não tem residência. Infelizmente, estou com fome, e mesmo sabendo que o material que uso para fazer minha arte veio de Deus, lhe peço o que tiver para que eu possa comer esta noite.

Abrindo minha carteira cheia de cartões que me lembravam das minhas dívidas bancárias, eu disse:

– Confesso que não tenho muito mais que você. Me encontro em uma situação muito complicada na vida. O que tenho para lhe oferecer agora é o troco da passagem de ônibus.

Dei para aquele estranho homem as únicas moedas que eu possuía, mesmo sem saber se seu discurso era realmente verdadeiro. O seu rosto demonstrou imensa gratidão ao pegar meus últimos centavos. Sem contar as moedas ali na nossa frente, ele as colocou no bolso e se levantou. O momento durou poucos segundos. Ver aquele homem ajoelhado no chão estimulou para que eu agisse com tal iniciativa.

Nos despedimos por meio de sorrisos e seguimos na mesma direção. Eu, que estava alguns passos atrás, vi o homem abordar uma senhora, quase que da mesma maneira que abordou minha filha e eu, e a atitude arredia e agressiva dela. A reação daquela senhora foi levantar e balançar a mão que segurava um cigarro e espantar o homem. Para não ser queimado, ele se afastou e deixou a senhora seguir seu caminho.

Após passar por ele, pus-me a pensar em como aquela mulher se privou de um momento passageiro de felicidade por conta do medo. O medo do desconhecido, dos perigos que com ele poderiam vir acompanhado.

Quem perdeu uma oportunidade, talvez, não foi aquele homem de cabelos mal tingidos que fazia um belo trabalho improvisado, mas quem se negou a observar a delicadeza e sutileza daquele momento.

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