Crônicas

O nascimento de um homem

Por Mellanie Anversa.

Vinicius Barbosa nasceu em abril de 2016, com 23 anos, no momento em que tomou a primeira dose da preciosa e sonhada testosterona, principal hormônio sexual masculino.  Até nascer, Vinicius passou por uma gestação de risco: não se reconhecer em seu próprio corpo por mais de duas décadas.

Antes de ser conhecido como “O Príncipe”, Vinicius se chamava Vanessa Pereira Barbosa, filha adotiva, amada e criada por pai militar, o que significava uma criação severa e regrada. Nunca foi de usar saias, os cabelos crespos esvoaçantes deixavam sua mãe perplexa “Vai pentear esse cabelo, Vanessa, cruz e credo”, dizia sua mãe com o sotaque carioca.

Saias, nem pensar. Suas roupas eram largas e serviam para praticar o esporte favorito na época, futebol. Suas chuteiras viviam estropiadas e a sola dos pés sempre escuros, a ponto de só conseguir tirar a sujeira com uma áspera esponja de banho.

Nas brincadeiras, Vinicius sempre fazia escolhas mais ligadas ao esporte e se o assunto envolvia imaginação, seu personagem era masculino. Evelyn Cristine conheceu Vinicius com 8 anos e eles sempre foram muito próximos durante a infância e adolescência. “Eu convivi bastante com o Vinicius e sempre ficou muito claro esse conflito de se identificar com o gênero diferente que ele nasceu”, conta.

Em casa, o gênero ou orientação sexual nunca foi algo discutido ou motivo de desconfiança. Tanto que ao se assumir como homossexual, em 2009, causou uma tempestade na vida de seus pais, por mais que para amigos próximos, isso nunca tivesse sido motivo de surpresa. Vinicius tinha 15 anos e não sentia dúvida em relação à sua orientação.

O susto veio quando soube que seu pai recebera transferência no trabalho e sua cidade quase natal – veio morar em Curitiba com dois anos – ficaria para trás, junto de seus amigos que tanto o apoiaram. Seu destino foi Dourados, em Mato Grosso do Sul, a 869 km de distância de tudo que havia construído enquanto vivo. Após três anos “naquela cidade cheia de barro”, Vinicius se mudou para Belém, no Pará. E lá seu nascimento começa a ser fecundado.

“Meus pais viraram evangélicos e me forçavam a ir para a igreja, mas eu não estava sendo eu mesmo.”. Vinicius conta que ao frequentar a igreja, mesmo se sentindo mais conectado com Deus, sabia que não estava fazendo o certo, pois tudo que ouvia nos cultos estava errado para ele. Evangélicos não aceitavam homossexuais.

Quando decidiu parar de frequentar a igreja, os problemas em casa aumentaram. “Minha mãe implorava para que eu fosse ao culto, e quando eu negava, ela me trancava em casa. Passei um mês sem colocar o pé pra fora”, conta Vinicius.

Foi então que tomou a decisão que foi um divisor de águas em sua vida, ir embora da casa de seus pais. “Eles iam se mudar novamente, então eu decidi morar na casa de uma amiga. Eu tinha cem reais no bolso e mesmo assim fui”, lembra. A decisão o afastou de seus pais que não fizeram questão de manter contato por um longo tempo e só voltaram a ligar para ter certeza que Vinicius estava vivo.

Sem trabalho ou ajuda financeira, ele chegou a passar fome, até que conseguiu seu primeiro emprego como assador em uma churrascaria na cidade. Sua experiência no ramo era zero, o calor fez Vinicius emagrecer muito, mas as contas pagas no final do mês era motivo suficiente.

Ele conta que ali começou o momento mais obscuro de sua vida. Com os olhos esbugalhados e a voz rouca um pouco mais trêmula, ele relembra os dias que saiu de seu emprego, foi morar em uma praia de Belém e virou promoter.

“Eu comecei a ganhar dinheiro com as festas, vivia drogado, fazia coisas que não me lembrava no dia seguinte. Foi aí que comecei a me envolver com um amigo meu, mesmo que minha orientação sexual fosse outra”, conta Vinicius.

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Foto tirada em 2007 no Shopping Mueller, em Curitiba

Com frases pausadas demais, ele diz “Minha menstruação estava atrasada, mas como eu vivia fora de mim, não havia percebido. Até que um dia eu fui no banheiro e senti algo sair de dentro do meu corpo. Eu havia tido um aborto espontâneo.”. A entrevista foi pausada. Vinicius olhava para baixo balançando a cabeça, confirmando para si mesmo a versão que acabara de contar.

Após o aborto, ele percebeu que não tinha mais objetivos em sua vida, que estava vivendo apenas um dia após o outro. Foi quando decidiu juntar suas coisas e voltar para o lugar que nunca gostaria de ter saído, Curitiba.

Chegando na amada cidade, ele começou a procurar na internet informações que explicassem o que ele andava sentindo. “Comecei a pesquisar e encontrei um escritor transgênero chamado João W. Nery e o adicionei nas redes sociais, como quem não quer nada”, relembra.

“Se você é um transsexual de verdade pode me adicionar, se não, esqueça.”. Essa foi a mensagem respondida pelo escritor que provocou Vinicius a entender o que ele era. Naquele momento, Vinicius havia sido fecundado, finalmente ele começara a compreender.

Ao procurar os procedimentos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde – SUS, começou seu tratamento sem pensar duas vezes, não era algo que significasse pensar para ele. Era o que ele sentiu a vida toda. “Então eu fui contar para minha namorada Monike, hetero, que estava comigo por pura curiosidade, que eu ia dar entrada para receber um tratamento hormonal que me transformaria em Vinicius”, ri.

“Eu conheci o Vinicius ainda como Vanessa, e por incrível que pareça, sempre vi ele como homem. Eu só queria ver ele bem, porque eu amo a pessoa que ele é”, conta sua namorada, Monike Aniely.

Após começar as sessões obrigatórias de conversas com uma psicóloga do SUS, Vinicius conseguiu a lauda que permitia o início das injeções de hormônio em apenas uma sessão de terapia. “Ela disse que eu não tenho dúvida de quem sou”, diz orgulhoso de si mesmo.

Atualmente, ele toma as injeções a cada 21 dias, mas isso pode variar de acordo com a resposta que o corpo dá. O líquido do hormônio é oleoso e denso. “Depois de aplicado fica uma bola dolorida na pele”, diz.

Hoje, Vinicius realizou um sonho. Comprou a casa própria, mobiliou todos os cômodos com o dinheiro suado que ganha como operador de cobrança, é reconhecido legalmente como Vinicius Pereira Barbosa e mais do que nunca, feliz por habitar em um corpo que sempre desejou.

7 comentários em “O nascimento de um homem

  1. Guilherme Nagel

    Parabéns pela escrita mt bom o texto,e o Vini sem palavras admiro mt, guerreiro msm, orgulho em tê-lo como amigo ….

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  2. Elisa Anolaço

    Eu estaria chocada ,se não te conhecesse muito bem Vini ! Lembro ate hoje do susto que levei no banheiro,eu pensei que eu estava no banheiro masculino kkkk.
    Hoje te vendo assim,sabendo tudo que vc passou , sinto orgulho de você ! Sua história é mais do que linda , é emocionante, é gratificante ler . Nós prova diariamente que isso não é um mito e não acontece apenas em novelas , é um prazer ter te conhecido e estar contigo diariamente ,e poder dizer aos outros que tu é “meu parça” . Parabéns por todas as suas conquistas ,vc é forte demais ! É filho de Deus,e o que é de Deus ninguém toca. Tenho orgulho de ti parça !❤️

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  3. Monike Aniely Cardoso

    História do homem da minha vida ,e não canso de repetir , Meu orgulhoooo ❤

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  4. Lucione Lima

    Uma história linda, você é uma pessoa maravilhosa Vini, tenho muito orgulho de ser sua colega de trabalho e ter conquistado sua amizade. Que Deus continue te abençoando para você crescer mas e mas, você é lindo por fora e por dentro, amei saber um pouco mas de você, orgulho de ser tua amiga. ❤

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  5. CAROLINE TORRES

    Motivação diária !
    Parabéns por tudo, Vini ❤️

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  6. Vinícius

    Obrigado a todos pelos comentários,espero que não só seja uma história mas que possa ajudar muitas pessoas a jamais desistir dos seus sonhos !
    Obrigado Mée pelo espaço para poder contar um pouquinho da minha vida e obg por fazer parte dela desde sempre.

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  7. Ramilo Guimaraes

    O conheço a pouquíssimo e digo que pessoa maravilhosa. Vini é um cara que gosto muito. Muito parceiro, gente fina, guerreiro. E claro, é uma espelho para a sociedade . O que eu desejo para você Vinicius é muita saúde para que assim continue na sua batalha diaria para continuar conquistando seus objetivos. Um grande abraço desse Nordestino que sou haha!

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