Crônicas

Meu amigo “namorado”

Por Vinicius Frois. 

Posso contar nos dedos de uma mão, sem precisar de todos eles, quantas vezes entrei em um sex shop. O curioso é que, em nenhuma delas, fui cliente – chegara a hora de ser.

No entanto, chegar a uma loja de produtos eróticos, olhar alguns adereços, pedir ajuda a algum vendedor, comprar e sair, seria a mesma coisa que comprar um remédio para dor de cabeça em uma farmácia. Tinha de ser algo novo.

Foi então que tive uma ideia. Convidei um amigo para ir comigo e fiz a proposta. “Topa ser meu par para irmos a um sex shop?”. Ele estranhou, riu, mas concordou. O desafio era se passar por um casal gay.

Chegamos à loja e entramos de braços dados. Começamos a passear entre as prateleiras e não demorou até que uma vendedora abordasse-nos. “Olá, posso ajudá-los?”.

Por mais que quiséssemos planejar toda a visita ao lugar, não tínhamos a mínima ideia de como seria. Soava engraçado para um casal de amigos que jamais havia sido cliente em um sex shop, muito menos como gays.

Fato é que a estranheza era apenas de nossa parte. Até que pudéssemos decidir alguma coisa, dispensamos a vendedora e eu disse que chamaríamos quando necessário. Continuamos andando.

Na sessão de géis, ficamos conversando enquanto pegávamos embalagens de conteúdo com efeito lubrificante, estimulante ou retardante. Entre risos e brincadeiras, chamávamos um pouco a atenção das pessoas na loja – cerca de 15 pessoas, entre vendedores e clientes.

Comentei com meu amigo que, por estranheza ou imaturidade, formávamos um péssimo casal de atuação. Até então não havia acontecido nada de diferente, então decidi arriscar com sugestões da vendedora. “Moça, por favor, queremos a sua ajuda”.

Disse a ela que estávamos juntos há cerca de um ano e queríamos algo diferente para a nossa relação, mas não éramos muito ambientados com adereços. Meu amigo riu e eu o acompanhei, sem exageros.

Ela nos levou até uma seção com objetos de masturbação e estimulantes. Era uma prateleira grande, com “pênis realísticos, anéis estimuladores, preservativos de efeitos variados”, e mais uma infinidade de coisas. A funcionária da loja ia explicando um pouco sobre cada produto, nos dizendo como deveríamos usar. Meu amigo e eu nos olhávamos com vontade de rir. O que nos soava engraçado era criar a cena no pensamento. Parecia que a loja inteira estava assistindo aquilo em uma grande tela. Era uma mistura de risos contidos e ele pegando na minha cintura e me abraçando.

Perguntei como funcionava o anel estimulante e a vendedora explicou que, basicamente, “ele estende o prazer, mantendo a ereção por mais tempo”. Coloquei na cestinha.

Voltamos à sessão de géis, peguei um com efeito estimulante e outro para massagear, e perguntei para a vendedora se a loja tinha algum jogo erótico. A moça nos indicou diferentes cartelas de raspadinha que revelavam posições sexuais, peças de roupa a serem removidas ou um tipo de beijo. Ainda, dados eróticos, baralhos com posições do Kama Sutra para gays e outros jogos de carta e de tabuleiro que sugeriam algo mais romântico. Peguei um baralho.

Olhei para o meu amigo, perguntei se era o suficiente e ele apenas acenou positivamente com a cabeça. Foi o momento em que o disfarce quase se desfez. Foi o medo que tive na hora, mesmo que ninguém ali fosse se importar se soubesse daquela farsa.

Seguramos um na mão do outro e pegamos o rumo do caixa. Não que seja relevante, mas o segurança que cuidava da porta nos olhava como se não estivesse gostando do que via. Não sei se por desprezo ou porque estávamos fingindo mal.

Pagamos os óleos, o anel e o baralho e fomos embora. Já no carro, começamos a brincar sobre quando usaríamos os objetos. Foram alguns minutos de gargalhada e a concordância mútua de que éramos um péssimo casal gay e deveríamos seguir cada um o seu rumo.

A verdade é que foi tudo muito comum, como se tivéssemos ido ao mercado ou à padaria. Diferente mesmo foi o fato de eu ter ido com o meu “namorado”.

Leia também: DO POVO AO POMBO.

2 comentários em “Meu amigo “namorado”

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