Crônicas

Do palco para cá

Professora e alunos de teatro do Portão Cultural ensinam como é viver um mundo de fantasia e aplausos.

Por Mellanie Anversa.

O mundo é diferente da ponte pra cá, já dizia Racionais Mc’s em uma de suas músicas dos anos 2000. Do Portão Cultural pra cá o mundo também é diferente. Ele vai de moradores de rua embriagados estirados ao chão (como se paralelepípedos gelados fossem plumas) a jovens, adultos e idosos embriagados de cultura atirados ao chão num riso eterno. O riso é contagiante. Do portão pra cá feições se transformam, é hora de viver.

O Portão Cultural é um centro cultural ao lado do Terminal do Portão, em Curitiba. Aqui, ele mistura diversas linguagens artísticas para a comunidade de forma gratuita. A fachada (diz tudo), é cool. Construído em 1988, registrado de Centro Cultural Portão na época, ele passou por uma reforma e foi reinaugurado em 2012, abrigando o MuMa – Museu Municipal de Arte de Curitiba, o Cine Guarani, o Auditório Antônio Carlos Kraide, a Casa da Leitura Wilson Bueno e um Centro de Arte Digital, além de Espaço de Convivência e salas para cursos e projetos de ação educativa.

Em uma dessas salas eu o conheci ele: (sua majestade) o palco, aquele medonho que me faz perder os sentidos mais básicos. Nem me dei conta que ele estava lá, mas todos no recinto o viam. Parecia um fantasma, ou melhor, um anjo/demônio. E foi pelo anjo e demônio que os exercícios começaram, do Portão pra cá.

“Escolham seu anjo e depois o demônio”, disse a professora de teatro Stael Fraga de Batista. “Mas não contem a ninguém”, frisou a experiente profissional da Fundação Cultural de Curitiba.

Acostumada com o clima teatral desde 1992, ela conduzia quase 30 alunos em uma sala de 100 metros, andando como baratas tontas, pensei no início, olhando uns para os outros em um ritmo ditado pela música. Eu não entendi nada, mas continuei à procura de alguém para ser meu anjo e outro para ser o demônio. Alguém que eu conseguisse me lembrar depois de ver tantos rostos diferentes.

Já não aguentava mais andar em círculos, retângulos, triângulos, olhando para as mais diversas expressões. Elas tinham rugas, piercings, maquiagem, muita maquiagem, suor, de tudo um pouco. Eu sentia a escoliose pedindo uma trégua para a coluna e o corpo, mas parar não era algo que eu queria.

Eu estava começando a viver o momento sem me importar com os sensos comuns de minha timidez quando o exercício foi interrompido. A um só tempo, se abriram a boca da professora e um buraco negro imaginário que engolia suas palavras e me puxava para dentro. “Agora vocês vão criar uma cena com as características do anjo que vocês escolheram”.

Fácil, o meu anjo andava de uma maneira peculiar, só precisava imitar mesmo. Quem dera, a frase não havia chegado ao fim. “Vocês escolheram o anjo por uma característica que não é palpável, é algo que vocês se identificaram e admiram. O exercício é construir uma cena em grupo com um personagem com essa característica que não é física”.

Naquele momento, o buraco no chão negro era mais atrativo do que nunca, mas como eu iria me esconder lá sem que ninguém notasse? Eu já era parte do grupo. A cena precisava do meu anjo.

Grupos formados. Hora de criar. Sentados no chão em círculo tímido, nenhuma de nós disse nada.  “Aí Jesus. Entrei um grupo teatral tímido, só o que me faltava”.

Os pouco minutos pareceram horas, era constrangedor. “Então, quem é o anjo de vocês e porque vocês o escolheram?”, disse Anna, a menos tímida.

Até aquele momento, não havia identificado porque escolhi essa pessoa, em específico, para ser meu anjo diante de um grupo de 30 pessoas.

Pensei nos olhos do meu anjo. Em geral, o que mais me atrai nas pessoas. Percebi, então, que meu anjo porque ele sorria com os olhos. A viagem ficou longa quando cada um começou a descrever as características dos seus anjos.

Como criar uma cena com isso? O tico e o teco começaram a mirabolar algo útil quando a primeira ideia surgiu. “E se estivéssemos em uma balada?”, disse a pessoa que sorria com os olhos que escolhi para ser meu anjo.

As coisas mudaram. Ideias na mesa, me transformei. “Sim, diretora”, disse Rose após eu ditar as cenas passo a passo ensinando o que cada um devia fazer. Eu estava sendo mandona, pra variar. Tentei me controlar, mas aquele momento despertava meu lado mais criativo, aquele que se apaixonou pelo jornalismo.

Treinamos uma, duas, três, quatro vezes a mesma cena, que não poderia ter diálogos e deveria ter duração de até três minutos – as únicas duas regras. Não queria parar até estar perfeito. Posicionava cada uma, sugeria o que fazer com os gestos e as feições. Não era eu, ou melhor, aquela era eu. Era confuso admitir.

Cenas decoradas…chegou o grand finale. Como mágica, o local parecia ter se formado um palco com luzes, cortinas e flores, mas era apenas o pequeno salão com paredes de vidro do Portão Cultural.

Estávamos todas em posição, quando o coração começou a disparar. E se eu tropeçar? – essa deve ser a primeira coisa que um amador pensa.

Daquele momento então, tudo passou com a rapidez de um estalar de dedos. O coração disparado e o corpo relaxado, o rosto feliz ao som dos aplausos e flores aos meus pés, quem dera, pelo menos do palco pra cá.


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