Crônicas

Lar, amargo lar

Por Vinicius Frois.

Dentro de sua extensão de pouco mais de um quilômetro, a rua José Lins do Rêgo, no Bairro Alto, guarda, em uma de suas quadras, uma antiga garagem que em nada lembra o lugar onde Jobs e Wozniak começaram a Apple ou onde Jeff Bezos começou a Amazon. Pelo contrário, o lugar reserva uma realidade bem mais melancólica.

A rua é tranquila. Têm casas pequenas, casas grandes, todas com a característica estética de um distrito suburbano. Elas contrastam com o emaranhado de fios de elétricos repletos de restos de pipas, capas de guarda-chuvas e tênis velhos presos pelo cadarço.

Os cães atrás dos portões latem para os que estão fora, desfilando, deitados à sombra ou comendo restos de comida que alguém pôs fora.

Algumas crianças jogam futebol no gramado da frente de uma das casas. Pelo desgaste visível da relva, eles devem abusar do espaço com frequência.

Dois quintais estão sem moradores. Foram adquiridos por uma empreiteira há pouco mais de cinco anos, mas não iniciaram obra alguma, pois não obtiveram êxito em comprar os terrenos vizinhos e ter campo suficiente para montar um condomínio residencial. Apenas fecharam com muros altos e portões de aço e instalaram calçadas em frente, pois recentemente foram multados pelo poder público devido ao lixo que moradores acumulavam ali.

Um boteco de madeira que mais lembra uma banca de doces também está instalada na quadra final da José Lins do Rêgo. Ela fica ao lado de um lava-car, a última propriedade da rua.

É nesta quadra onde se reúnem alguns usuários de droga e dependentes alcoólicos. A roda de amigos se forma na calçada de um das posses, onde está um pequeno cercado, que antes servia de garagem. Em meio a eles está Carlos, morador do local há 38 anos. Destes, dois vivendo dentro de um espaço que mais parece um curral.

O que até pouco tempo era uma garagem, hoje é o lar de um homem que reflete no olhar uma vida sem esperança. Uma vida entregue ao mundo das drogas.

O cubículo não tem mais que dois metros de largura, por três de comprimento e pouco mais de dois metros de altura. Suas paredes são, de um lado, telhas de zinco reutilizadas e, do outro, tábuas velhas cheias de remendos. O fundo possui apenas alguns pedaços de madeira que não chegam a um metro de altura e a frente é fechada por um velho portão de lata que já não corre nos trilhos. O chão é de terra. Ali mora Carlos.

Expulso de casa, o homem conta que o pai permitiu que ele dormisse sob o teto da garagem inutilizada. Desde então, o cercado se tornou o seu lar.

Carlos passa quase todo o dia sentado em um tronco cortado, rodeado pelos companheiros, um cachorro e muita sujeira. Quem passa pela rua não imagina o que esconde o velho portão daquela alcova.

O lar do homem fica em um quintal grande onde moram algumas famílias – uma delas a de Carlos. Abre-se um portão pequeno e enferrujado, que range alto. Atrás dele um corredor que não parece ser limpo há um bom tempo.

Pelo curto caminho, cheio de pedras e mato, há restos de fios de cobre, latas de alumínio, papelões, livros e revistas velhas. Sobre uma folha de acrílico, fezes de ratos dão a dimensão do que há mais à frente.

Não é preciso andar muito para chegar à “entrada”. É um espaço menor que um metro entre os fundos do cercado e uma casa de madeira abandonada.

O cheiro de urina é fortíssimo. Carlos e seus amigos fazem suas necessidades naquele canto. A parede lateral do dormitório de Carlos também fecha a garagem do vizinho, onde, além do carro, ele deixa seus três cachorros.

Garrafas de bebidas, restos de comida e embalagens ficam jogadas no canto. É como se ali fosse a lixeira.

Dentro da antiga garagem a fetidez é ainda pior. Há pilhas de roupas sujas pelos cantos, tênis velhos espalhados, uma coberta estendida sob a terra, onde dorme algum eventual hóspede do anfitrião, e uma rede esticada de uma ponta a outra, onde Carlos dorme.

Nas paredes, cheias de pregos, o homem pendurou três pequenos espelhos, um quadro de Nossa Senhora de Aparecida manchado pelo tempo, latas onde ele acende velas à noite e algumas peças de roupa não tão sujas. Como se tentasse dar um ar mais aconchegante ao seu cafofo.

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