Crônicas Saúde

Uma fila pela fé

Por Mellanie Anversa. 

Eram nove horas em ponto, exatas três horas e meia para abrirem os portões do CECOP – Casa Espiritualista Cristã Obreiros da Paz. Na fila, havia pouco mais de dez pessoas, umas sentadas em suas cadeiras de praia, outras, menos preparadas, sentadas no chão próximos ao muro. Os rostos eram desenhados pelas marcas do tempo, inevitável. Para passar a hora na fila, uns conversavam, outros apenas existiam.

“O Cecop cura, é só ter fé”. Seu Luiz, quase como um político em ano de eleição, dizia tão convicto de suas palavras que era prova viva delas. “Venho aqui há pouco tempo, mas já está resolvendo muito”. O senhor simpático, com sorriso branco e pele parda queria falar de problemas, mas não dos seus. Com um curativo pequeno no nariz que despertava curiosidade dizia “Eu sou católico, mas fé é fé, não é?”.

Uma peculiaridade por metro quadrado, cada pessoa estava ali atrás de algo, ou melhor, da cura. A fila não deixava mentir, quem quisesse ser atendido rápido e não esperar por horas tinha que chegar cedo. Em baixo de sol ou chuva, mas sempre com sombrinhas, independente de qual fosse o clima.

Pessoas de toda a cidade vêm com seus carros e os estacionam onde dá, somente um carro passa por vez no fluxo das ruas estreitas do bairro Tingui. Não fecham nas férias, não tem feriado, não há descanso. De quinta a quinta, há 24 anos, o Cecop realiza 6.000 atendimentos mensais. Seis mil pessoas, seis mil problemas, seis mil almas vão até lá guiados por nada mais do que a fé.

De Campo Largo até lá são três ônibus, Seu Adão sabe bem disso. Para estar às nove da manhã no Cecop vindo de Campo Largo, somente com fé. “Adão, como de Adão e Eva”. Aquele senhor, em específico, não era como os outros da fila. Mais uma vez, a doença não era evidente, mas ele fez questão de falar que fizera cirurgia nos olhos – aqueles olhos pequenos e azuis como o oceano, em seu melhor dia – para ele, desde que começara visitar a casa espírita, tudo havia melhorado. Melhorado tanto que tentou até convencer sua irmã Eva visitar a casa também.  “Ela até veio algumas vezes, mas depois fez “cena” e não adianta insistir se ela não tem fé, né?”.

Mal dava para entender as palavras que saiam da boca daquele senhor, ele falava rápido demais, “sou da roça”, tudo estava esclarecido. Seu Adão, era pra ser Victório, mas como o avô, virou Adão. Como muito queriam Victório, a família se contentou em colocar o nome no batismo.

Naquela fila, de poucas pessoas até o momento em vista do que ela virararia mais tarde, só se falava em fé. Mesmo após encontros com médicos sem soluções e respostas vagas, seus pacientes saiam incrédulos das consultas e buscavam algo mais concreto que a medicina, pelo menos para eles.

O comércio ao lado era tão impactado quanto os moradores, com um negócio atípico para lavagem do interior das peças de carros, o empreendimento não tinha mais onde colocar os carros dos clientes, sendo que sempre os colocavam nas ruas estreitas do bairro.

Já era tarde, exatas doze horas após o início da fila, pasmem, ainda haviam pessoas. Os carros continuavam trancando as ruas. Lá de fora dava para ouvir uma voz calma, serena e grave falando no microfone para pessoas sentadas a sua frente. Como sua voz, as palavras eram sublimes, elevando seus convidados a um plano superior, calmo e quieto.

Os trabalhos mediúnidos desenvolvidos pelo Cecop envolvem cura e passe, de maneira gratuita, para quem precisar, acreditar e tiver fé.

0 comentário em “Uma fila pela fé

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: