Crônicas

O resgate da simplicidade

Por Vinicius Frois.

Era uma tarde de muito calor em Curitiba. O sol castigava quem se aventurava fora de uma sombra.

Eu, absolutamente distraído, lavava calçada em frente à minha casa, pois o tempo seco que já se estendia por algumas semanas fazia com que qualquer vento levantasse uma cortina de poeira.

Foi quando uma voz tímida se sobrepôs ao barulho da água que batia no piso de cimento:

– Senhor, pode me dar um pouco de água?

Era um garoto de pele morena e cabelos encaracolados.

Minha mãe sempre me disse que pão e água não se nega a ninguém. De pronto respondi:

– Claro! Espere um pouco.

Entrei e peguei uma garrafa de água gelada e um copo grande.

Voltei até ele, entreguei-lhe o copo e enchi-o. Em um gole ele o esvaziou. Sua sede parecia imensa. Perguntei se queria mais. Não negou.

Ele bebeu mais um pouco e eu comentei:

– Está calor, não é?!

E ele respondeu:

– Muito, senhor. Estou vindo lá do Tarumã (um bairro de Curitiba) a pé.

Fiquei curioso, confesso, e então questionei o que ele havia ido fazer para aqueles lados – nós estávamos no Bairro Alto (outro bairro de Curitiba). Ele pareceu não ter se importado com a minha intromissão e, abrindo uma das mãos mostrando uma cédula, me disse:

– É que hoje é meu aniversário, estou fazendo 12 anos. Minha madrinha mora ali no Tarumã e fui até a casa dela buscar cinquenta reais que ela me prometeu de presente.

Estiquei a mão para cumprimentá-lo pelo dia festivo, perguntei o seu nome e já fui supondo que ele deveria estar bem feliz, pois poderia comprar um presente ao seu gosto com aquele dinheiro.

Ele me disse que se chamava Fernando e que até queria, mas que ia dar o dinheiro para a sua mãe comprar o gás de cozinha que acabara.

Na hora fiquei sem reação, porém, antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele completou:

– Mas ela me disse que à noite, quando o meu pai voltar do trabalho, ela vai ao mercado comprar as coisas para cozinhar carne com batatas para o meu aniversário. Adoro carne com batatas.

Ele completou dizendo que a mãe estava sem emprego e o pai trabalhava “construindo casas”.

Ele trajava o uniforme de uma escola e, tentando sair daquela conversa que me deixara um pouco estarrecido, perguntei se ele estava estudava de manhã. Ele me respondeu que sim, no Colégio Maria Balbina, no mesmo bairro de onde vinha.

Falou, ainda, que gostava da escola. Lá tinha muitos amigos e eles jogavam futebol todos os dias na hora do recreio.

Ele terminou de beber a água, me entregou o copo e educadamente agradeceu. Quando foi saindo, eu disse:

– Vai com Deus, Fernando. Aproveite o seu dia e nunca pare de estudar.

Ele apenas acenou positivamente com a cabeça e não interrompeu seus passos rápidos.

Esta história nunca mais saiu da minha cabeça. Fiquei tentando compreender tamanha simplicidade.

Depois deste dia eu o vi algumas vezes ali pelo bairro, mas nunca mais nos falamos.

Não sei se ele levou alguma coisa daquela nossa rápida conversa, mas com certeza não sabe o que deixou para mim. Eu que, mesmo desapegado do fica neste mundo, sonho com tantas coisas, em sua maioria realizações profissionais e intelectuais, me senti pequeno.

Claro que ele ainda é apenas um garoto de 12 anos, talvez não compreenda a selva que é o mundo para os adultos, mas uma das suas únicas certezas é a de que adora carne com batatas.

Percebi que havia desaprendido sobre simplicidade ao me envolver tão intensamente com o pandemônio do campo político e social desta terra roubada de índios.

LEIA TAMBÉM:

Conexão Brasil – Itália: Uma história vivida da imigração.

1 comentário em “O resgate da simplicidade

  1. Pingback: “MEU COMPANHEIRO FOI EMBORA”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: