Crônicas

Conexão Brasil – Itália: uma história vinda da imigração

Por Mellanie Anversa.

Viúva aos 49 anos, quatro filhos para criar e não letrada, Helena Gusso Lunardon nasceu em 3 de janeiro de 1928. Desde cedo aprendeu a importância do trabalho. Estudou com êxito até o primeiro ano do Ensino Fundamental no Colégio Vicentino São José, existente até hoje no bairro do Pilarzinho. Na roça, o pai, Mauricio Gusso, precisava de ajuda para arar a terra e como o estudo em sua família não era de extrema importância para mulheres, Helena trocou lápis e cadernos por enxadas.

Durante a infância e adolescência trabalhou com o pai em atividades rurais no bairro Pilarzinho, perto de onde é atualmente o mercado Basso na Rua São Salvador. Na época, o local se tornou a casa dos Gusso, uma família de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil em 1888, mas viviam na Colônia Faria, em Colombo, quando chegaram ao Brasil, em 4 de março de 1888.

Quando o pai ainda era vivo, Helena casou-se com Aristides Lunardon, no dia 30 de novembro de 1946. O noivo também era de família imigrante italiana, e do casamento foram geradas quatro crianças: Araci, Altair, Neusa e Luci. Quando Helena tinha 34 anos, o pai morreu, em 17 de junho de 1963, de bronquiopneumonia. Ela morou em três bairros de Curitiba com o marido e filhos e, quando estavam instalados em uma casa perto do atual colégio e faculdade Opet, na rua Nilo Peçanha – Bom Retiro, Helena insistiu para que eles se mudassem para o bairro Pilarzinho, perto das irmãs. Aristides abriu mão do local que tanto gostava para agradar sua esposa. Mudaram-se então para a rua Eugênio Flor, ao lado do parque Tanguá.

Helena sempre deu valor ao trabalho e durante a vida foi diarista e babá. Dessa maneira, conseguiu um trabalho no Hospital das Clínicas como arrumadeira. Segundo seu neto, Emerson Cristis Anversa, nunca faltava o trabalho e ganhava vários benefícios como Licença Premium (direito à licença de três meses que o servidor faz jus a cada cinco anos de efetivo exercício). “Lembro que ela pegava o primeiro ônibus da manhã, mesmo a rua sendo de terra, e só faltou no dia em que o transporte que alugaram por causa do frio capotou, causando um grave acidente em que sua irmã saiu gravemente ferida, mas com vida”.

Aristides foi diagnosticado com tuberculose e fazia tratamento num hospital no bairro da Lapa, onde os pacientes ficavam isolados. Helena saia com seus filhos do bairro Pilarzinho até o hospital para visitá-lo. Morreu com 53 anos.  O testamento de óbito apontava problemas pulmonares respiratórios.

Após a morte do marido, Helena continuou a trabalhar no hospital, que era referência entre os pacientes. Sua neta, Andrea Anversa, lembra que as colegas de trabalho da avó apoiavam para que Helena trabalhasse na cozinha e auxiliasse os doentes. “Mas ela respondia que não sabia ler nem escrever e não teria como passar na prova para assumir o cargo.”

Com a ajuda das colegas, Helena passou na prova e começou a servir os pacientes que, segundo seu neto Emerson, a conheciam pelo nome. “Ela era muito boa, sempre ajudou aqueles que não tinham onde dormir e passavam a noite na frente do hospital, ela pegava comida para dar a eles e aos acompanhantes porque tinha pena”.

Com 85 anos, no dia 30 de novembro de 2013, a vida de Helena Gusso Lunardon encerrou por motivo de Sepse pulmonar, AVC (Acidente Vascular Cerebral) I com sequela e FA (Fibrilação Atrial) crônica.

Imigração

Em 1880, com a unificação da Itália, a região norte do país foi deixada de lado, segundo fontes históricas. A maioria da população de Vêneto passou a vir para o Brasil, que havia abolido a mão escrava-barata do país.

A viagem era feita em navios, e asseguravam aos imigrantes que quando chegassem no Brasil teriam condições de vida, como terrenos para suas casas, emprego e comida. As viagens eram longas e conforme os tripulantes morriam de doenças, tinham seus corpos jogados ao mar para não contaminar os outros ainda vivos.

O pai de Helena, Mauricio Gusso, chegou ao porto da cidade do Rio de Janeiro em 4 de março de 1888, acompanhado de seus pais Giovanni Gusso (45) e Maria Gusso (35) e seus irmãos Luciano (11), Emília (8) e Josephina (6). Em 8 de junho de 1888 desembarcou no porto de Paranaguá e foi liberado no dia 16 de junho do mesmo ano, sendo direcionado para a Colônia Faria, localizada em Colombo-PR, região metropolitana de Curitiba.

Mauricio chegou ao Brasil com apenas dois anos e aprendeu a falar a língua do país facilmente, por isso teve mais êxito em relação aos negócios que seus irmãos. Ele era lavrador e foi descrito em documentos oficiais como loiro, alto e com um bigode. Casou-se com Josephina Prevedelo e passou a morar no bairro Pilarzinho, em Curitiba-PR. Deste casamento foram originados cinco filhos, dando início à história de Helena Gusso Lunardon.

LEIA TAMBÉM:

Não era uma moeda.

3 comentários em “Conexão Brasil – Itália: uma história vinda da imigração

  1. Emerson

    Linda homenagem! Somente almas nobres remexem o passado e exaltam a essência! Glórias, dores e conquistas! A eternidade se faz através da memória e da gratidão! Parabéns Mellanie pelo belíssimo trabalho.

    Curtir

  2. Andrea

    Ótimo texto! Trouxe a tona toda sua representatividade como pessoa integra e exemplar que deixou sua memorável lembrança para todos aqueles que tiveram o prazer de conhecer!

    Curtir

  3. Pingback: O RESGATE DA SIMPLICIDADE

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: