Crônicas

Não era uma moeda

Por Vinicius Frois.

Eu estava em São Paulo há alguns dias. Lá, dos passeios que gosto de fazer, o preferido, sem dúvidas, é ir à Avenida Paulista.

O sol daquele domingo sorriu logo cedo. Apesar do frio matutino, a tarde parecia reservar um calor propício para se aproveitar os parques, praças e avenidas da Terra da Garoa. Não deu outra.

Preparei a câmera fotográfica. Bateria carregada e cartões de memória limpos. O dia era perfeito para registrar momentos.

Primeiro o ônibus, depois o metrô. Chegar ao destino não demoraria não fosse uma parada que fizemos em uma feira gastronômica – comigo estavam minha irmã e o seu marido, além um casal de amigos. Hora do almoço.

Seguimos com os planos daquele dia. Pegamos o metrô no terminal rodoviário Palmeiras – Barra Funda e entre uma baldeação e outra chegamos à estação da Avenida Paulista.

O que se via lá era de encher os olhos.
Shows de música, interpretação, circenses e muitos outros divertiam aquele mundaréu de gente.

Há algum tempo a Avenida é fechada aos domingos. A maioria dos carros que vemos por lá, nestes dias, são da Polícia, parados, fazendo a segurança. No mais, o congestionamento é causado por bicicletas, skates, patins e pedestres.

Eu só queria fotografar. Tudo que me despertava a atenção, eu empunhava a câmera e registrava através das lentes. A memória guardava um contraste interessante entre crianças miúdas e prédios enormes.

Foi então que uma cena me impactou. Estávamos caminhando próximos ao Museu de Arte de São Paulo, o MASP, quando um senhor tocou na minha mão e me pediu uma foto.

Eu já o havia notado alguns passos antes. Percebi que ele abria uma das mãos e pedia “uma moeda” aos transeuntes.
Foi isso que me fez, num primeiro momento, passar direto por ele, pois não tenho o costume de dar dinheiro para pessoas na rua.

Entretanto, custando a acreditar no que pedido que me fizera, me virei e perguntei àquele senhor:

– O que o senhor quer?

E ele respondeu:

– Uma foto minha. Você tira?

De pronto fiquei sem reação, mas disse:

– Claro. Eu faço uma foto do senhor.

Me ajoelhei em sua frente, liguei a câmera, ajustei a velocidade do obturador, a abertura do diafragma, enquadrei e foquei aquele velho homem e cliquei.

As primeiras fotos não ficaram tão boas. Muitas pessoas passavam entre ele e eu, até que notaram aquela cena e foram parando. Em segundos, um corredor de mais ou menos dois metros se formou. Era como se a Avenida Paulista tivesse parado para que o ancião pudesse caber nas lentes da minha câmera.

Enfim o fotografei!

Toda a correria continuou e, enquanto eu revisava as fotos, ele, ansioso, já perguntava:

– Tirou minha foto?

Respondi que sim, já caminhando em sua direção para mostrar-lhe o resultado. Quando apresentei o seu retrato, ele disse uma pequena frase que marcou aquele momento:

– Olha! Eu ainda sou bonitão, não é?!

Eu comecei a rir e ele me acompanhou. Apertei a sua mão para seguir o meu caminho. Ele me agradeceu, desejou coisas boas e voltou à sua rotina. Ainda incrédulo, esqueci até de perguntar o seu nome.

Impossível não ficar relembrando aquele acontecido pelo restante do dia.
Ele pedia moedas. Pedia esmolas a quem passava perto dele, mas para mim, apenas mais um na multidão, pediu uma foto. Um simples registro.

Aquele senhor precisava de dinheiro, por isso pedia, mas creio que o necessário para ele era mais do que matar a fome ou comprar roupas novas.

Fiquei feliz quando percebi, naquele momento, que o que ele me pedira não era uma moeda.

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Desabafo.

1 comentário em “Não era uma moeda

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